A síndrome da Impostora refere-se a uma dificuldade em internalizar o sucesso devido a sentimentos de ser uma fraude.
Esse fenômeno, também conhecido como impostorismo, ou experiência do impostor, pode afetar negativamente a sua saúde mental.

????????????????????????Às vezes penso que vão descobrir que eu sou uma fraude?. Joana me disse essa frase quando foi promovida no trabalho.
Quando eu ia dizer alguma coisa, ela me interrompeu: ?Pois é, eu sei que trabalhei muito por isso. É só que, sei lá, às vezes acho que não mereço estar ali, que não é meu lugar. ?
É muito interessante observar como pessoas que são, de fato, grandes realizadoras, sofrem com a síndrome da impostora, assim como a Joana...
A Síndrome da Impostora é sorrateira
No geral, clientes como a Joana me procuram para entender como continuar com o mesmo nível de performance no trabalho, sem surtar.
Depois de relatarem muita culpa e sentimentos de não merecimento, eu sempre pergunto como elas explicam seus sucessos e conquistas. Geralmente, elas dizem algo sobre o quão duro elas trabalham ou quão sortudas elas foram em determinadas situações da vida.
Ou ainda, como são gratas pela ajuda que receberam, como se a conquista delas não fosse mérito delas. E pior ainda: acham que porque é fácil para elas (o que é óbvio, pois são pessoas muitos estudiosas e qualificadas), o reconhecimento que recebem não é merecido.
Joana disse: ?Sinto que não importa o quanto eu trabalhe, eu sempre vou estar aquém do que esperam de mim. Estou sempre me capacitando mais e mais e sei que sou muito mais qualificada que a maioria dos meus colegas, mas mesmo assim, ainda sinto que sou uma fraude. ?
?Isso soa bastante cansativo? eu disse a ela, já sabendo a resposta que o 10 de espadas tinha trazido na sua abertura de tarô (entendedores, entenderão!) e, eu mesma, já tendo sentido isso na pele.
Ela respondeu: ?Sim! Eu estou exausta! Recebi essa promoção e nem tive tempo para comemorar, aliás, quase nunca paro pra comemorar o que que faço, ou o que realizo. Estou sempre sentindo que ainda falta alguma coisa. Eu não consigo descansar? por mais que eu tente, minha cabeça está sempre ligada a 200 por hora, sabe? ?
Sei sim? ô se sei?
Entendendo a Síndrome da Impostora
Na década de 1970, duas psicoterapeutas ? Pauline Clance e Suzanne Imes ? notaram que muitas de suas clientes altamente talentosas não eram ?donas? de seu sucesso.
O padrão era intrigante: essas mulheres se destacavam acadêmica e profissionalmente e, ainda assim, se consideravam pouco inteligentes ou merecedoras.
Elas acreditavam que tinham chegado tão longe porque outros haviam superestimado suas habilidades e temiam que, em algum momento, seriam descobertas como impostoras ou fraudes.
As psicoterapeutas chamaram então esses sentimentos de ?fenômeno da impostora?, hoje mais conhecido como síndrome do impostor (a), mas também como impostorismo, síndrome da fraude ou experiência do impostor.
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Em todos os casos, trata-se de uma tendência de ver o sucesso como imerecido. As pessoas que sofrem com o fenômeno do impostor se sentem uma fraude, embora existam evidências abundantes da sua competência e das suas conquistas.
Como a síndrome da impostora te afeta na prática?
Ao invés de reconhecerem suas próprias capacidades e esforços, geralmente, as pessoas que desenvolvem a síndrome atribuem seus sucessos a fatores externos, como sorte, bom momento ou um esforço extraordinário que não podem despender regularmente.
Enquanto, de forma similar, atribuem falhas ou feedback negativo a fatores internos, como falta de inteligência ou potencial.
Embora seja altamente prevalente entre mulheres, especialmente as mulheres negras, por causa de sua identidade duplamente estigmatizada, indivíduos trans e não binários e vários grupos étnicos, sofrem com esse fenômeno.
Pesquisas sugerem que cerca de 70% dos adultos experimentam o impostorismo pelo menos uma vez na vida.
Um estudo descobriu que os homens não necessariamente se identificam como sofrendo com sentimentos de impostorismo, mas que apresentaram sintomas parecidos à síndrome da impostora em situações profissionais e acadêmicas em que tinham que responder sob pressão.
A síndrome da impostora não é considerada de fato, uma síndrome ou doença. No entanto, pessoas que passam por esse fenômeno podem experimentar uma ampla gama de condições de saúde mental, incluindo depressão, ansiedade, baixa autoestima, esgotamento mental (burnout), sintomas somáticos, disfunção social e diminuição do ritmo de trabalho.
O que causa a síndrome da impostora?
Traços de personalidade impulsionam em grande parte a síndrome da impostora. Pesquisadores da Universidade de Hamburgo, na Alemanha identificaram seis desses traços:
Outros traços como dificuldades de ter autonomia/independência, perfeccionismo, tendência a se comparar com os outros e baixa autoestima também contribuem para o desenvolvimento desse fenômeno.
Embora a associação do fenômeno com traços de personalidade leve ao entendimento de que a síndrome é um problema individual, não podemos desconsiderar que as expectativas sociais e preconceitos relativos à raça e ao gênero contribuem (e muito) para o desenvolvimento da síndrome da impostora.
Por exemplo, um estudo recente da Journal of Educational Psychology descobriu que estudantes universitários negros que tiveram experiências mais frequentes com discriminação racial relataram sentimentos mais fortes de impostorismo.
Já outro estudo realizado em 2015 mostrou que pessoas mais preocupadas em serem estigmatizadas por causa de seu gênero experimentaram níveis mais altos do fenômeno impostor.
E as causas não param por ai!
Para universitárias negras e latinas, a interseção dos desafios do racismo e do machismo as tornam ainda mais suscetíveis à síndrome da impostora.
Um estudo de 2020 descobriu que, para acadêmicas negras de doutorado e pós-doutorado, o gênero era uma das muitas identidades que se cruzavam para contribuir para o desenvolvimento de sentimentos de impostor.
Os locais de trabalho e os ambientes acadêmicos continuam sendo o reflexo de um sistema de discriminação e abusos de poder, que é estruturante da nossa sociedade.
Muitas de nós somos o primeiro membro da família a ir para a universidade ou a não seguir exatamente as expectativas dos pais, sejam elas sobre seguir determinada profissão ou ter uma família ou casamento tradicionais.
E isso aciona outro fator importante que deve ser considerado: o sentimento de pertencimento a um grupo ou comunidade.
Pessoas que relataram sentimentos de impostor mais fortes também relataram um menor sentimento de pertencimento ? isto é, aqueles que tinham sentimentos reduzidos de associação e conexão com os outros em sua comunidade se sentiam impostores.
Na verdade, não pertencemos porque nunca deveríamos pertencer. Nossa presença na maioria desses espaços é resultado de décadas de ativismo de base e legislação desenvolvida a contragosto das classes mais abastadas.
Juntos, esses estudos dão suporte à ideia de que é preciso considerar não só o indivíduo (ou seus traços de personalidade), pois não é somente uma questão psicológica interna. É preciso também considerar as estruturas e os contextos que podem ser responsáveis por sentimentos de impostorismo.
10 estratégias para lidar com a síndrome da impostora
Tendo consciência de que a síndrome da impostora é uma dinâmica entre características pessoais e imposições socioculturais e, enquanto estamos trabalhando para desconstruir as estruturas sociais históricas responsáveis pelo fenômeno do impostor (entre tantos outros), existem algumas coisas que podemos fazer para amenizar a síndrome, entre elas:
A síndrome da impostora é mais comum do que se imagina. E, apesar de atingir as mulheres mais frequentemente, por questões históricas (as mulheres não deveriam, de fato, ocupar espaços no mercado de trabalho e nas universidades), os homens também podem ser afetados pela síndrome, embora tenham dificuldades em identificar os sentimentos relacionados a ela.
Olhe para a sua trajetória e veja o caminho que você teve que percorrer para conquistar o que conquistou. Valorize as a sua história e as suas conquistas!
Entenda que você não precisa fazer tudo sozinha. O trabalho em equipe pode aliviar a sobrecarga de tarefas e a sensação de ser uma impostora, seja porque você distribuiu as responsabilidades, seja porque você não receberá todo o reconhecimento sozinha.
Vivemos em uma sociedade composta de diferentes referências culturais, que incluem as famílias, as religiões, as etnias etc.
Também temos que considerar que tivemos um longo processo histórico de colonização e escravização, que excluía pessoas pretas dos lugares sociais.
Além disso, a exclusão das mulheres do mercado de trabalho, das escolas e universidades foi arquitetada durante séculos e essa é uma das razões pelas quais as mulheres sofrem mais com a síndrome da impostora.
Enfim, considere que esse fenômeno tem um fundo sociocultural e histórico.
Seja audaciosa ao definir suas metas, mas também realista para que elas não virem uma fonte de frustração e insegurança. Além do mais, reflita sobre se os seus objetivos são realmente seus ou se você só quer agradar outras pessoas.
Considere também que os objetivos mudam com o passar do tempo, então é necessário revisar as metas e objetivos de tempos em tempos.
Ficar presa entre o desejo de florescer e o medo de alcançar o sucesso pode ser doloroso e paralisante. Esse medo pode ser indicativo de medos específicos, como o medo da responsabilidade, de cometer um erro ou de decepcionar alguém.
Pergunte a si mesma qual é a sua ideia de sucesso e entenda que você pode ter desenvolvido crenças que limitam o seu desenvolvimento. As ideias do que é ser bem sucedida para os seus pais ou familiares pode ser bem diferente da sua própria ideia de sucesso. Não se limite ao que esperam de você.
Isso ajuda a ver a ?humanidade? dos outros e a entender que eles também erram, não só você. No entanto, evite comparações.
Aprender a tolerar o desconforto e aceitar a imperfeição pode ajudar a superar a sensação de ser uma impostora.
Pergunte-se porque você se considera uma fraude. Se fosse um amigo ou um colega você o consideraria uma fraude também? Tenha paciência consigo mesma e observe a sua conversa interna para não se maltratar.
Se dê um tempo para curtir as suas conquistas e descansar. Olhar para o caminho percorrido e reconhecer os nossos esforços é libertador!
Não temos que sofrer caladas! Quando você conversa honestamente com um profissional (que pode ser uma terapeuta, uma mentora, uma coach etc.) entende que a sua insegurança e mal estar é um sentimento comum, então você consegue traçar um plano com estratégias para lidar melhor com os sentimentos de impostorismo.
Para fechar
Depois que Joana começou a usar algumas dessas estratégias, as coisas começaram a mudar.
Nas próximas sessões ela me disse que talvez estivesse criando expectativas irreais e se cobrando demais. Além do mais, ela era uma das primeiras da família a quebrar um padrão de comportamento:
?Na minha família, as mulheres deveriam cuidar da casa, dos filhos e dos maridos. A minha ideia de sucesso não é essa e, por mais que eu me esforce, nada que eu faça fará com que meus familiares pensem que sou bem-sucedida. Eu não quero ter filhos e isso para eles sempre será um fracasso. Quebrar essas expectativas dos meus pais, faz que eu me sinta inadequada, às vezes, mas pelo menos já entendi que não tenho que me prender a essa crença deles. ?
?Tenho que me dar tempo para comemorar minhas conquistas e me cercar de pessoas que tenham mais similaridade comigo e que me ajudem a me sentir merecedora do que eu já conquistei. ?